Na manhã de 28 de outubro de 2025, as forças de segurança do estado do Rio de Janeiro desencadearam uma ofensiva em grande escala nos bairros Complexo do Alemão e Complexo da Penha (Zona Norte da capital) com o objetivo declarado de desarticular a facção Comando Vermelho (CV) e conter sua expansão territorial.
Mobilizando cerca de 2 500 agentes, entre policiais civis e militares, a ação denominada “Operação Contenção” foi apresentada pelo governo estadual como parte de uma resposta frente ao aumento do capacidade ofensiva do crime organizado nas favelas.
Os resultados iniciais foram impactantes: mais de cem pessoas foram mortas, dezenas presas, e armas de grosso calibre foram apreendidas. Um balanço divulgado pela polícia apontou 119 mortes, 113 presos, 118 armas entre elas 91 fuzis além da apreensão de artefatos explosivos.
Posteriormente, o número oficial foi atualizado para 121 mortos, configurando‑se como a operação policial mais letal da história do estado. O governo afirma que dentre os mortos estão quatro policiais (dois civis e dois militares) e o restante eram suspeitos envolvidos com o tráfico ou mandados de prisão pendentes.
Apesar do pacto oficial entre “inimigo” e “combate legítimo”, a operação suscitou uma série de controvérsias. Moradores e entidades de direitos humanos denunciam que em vários casos ocorreram execuções sumárias, uso indiscriminado da força, impedimento de diligências de perícia e falta de transparência no procedimento. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro tomou ciência de que 117 corpos já foram liberados pelo Instituto Médico‑Legal (IML), e permanece o questionamento se todos os mortos realmente participaram de confrontos ou se houve vítimas civis.
Em termos de repercussão pública, a ação dividiu opiniões, embora haja maioria de apoio entre a população. Pesquisa da Genial/Quaest apontou que 64% dos moradores do estado aprovam a operação contra o CV e que 73% defendem que a polícia realize ações de grande escala em favelas. Outra pesquisa da Datafolha indicou que 57% dos moradores da cidade do Rio consideraram a ofensiva um sucesso, mesmo com 39% discordando da avaliação governamental. Esse cenário revela o dilema central: combater o crime com medidas drásticas ou assinar o risco de violações de direitos humanos e reforço de lógicas de “guerra às favelas”.
Politicamente, o governador Cláudio Castro classifica o evento como “sucesso” e afirmou que “de vítimas, só tivemos os quatro policiais”, defendendo que não havia civis em área de mata durante a operação. No entanto, especialistas apontam que a escala de mortos, em sua maioria sem queixas criminais publicadas previamente ou sem identificação completa, indica risco de falência da estratégia de segurança pública e questionam se a ação resolverá efetivamente o controle do CV ou apenas reforçará o ciclo de violência e medo.
Para as comunidades afetadas, os efeitos são imediatos e profundos. Casas invadidas, pessoas feridas ou mortas, escolas e ônibus suspensos, o medo nas ruas como ao longo de décadas recorrentes nos mesmos territórios. A longo prazo, a central pergunta permanece: será que operações tão letais quebram ou apenas deslocam o poder das facções? Será que, sem política de presença contínua, social e de prevenção, o “sucesso” anunciado se traduzirá em redução do crime organizado ou apenas em impressões momentâneas de derrota?
O futuro dessa ação indicará muito sobre o modelo de segurança pública no Rio de Janeiro: se o Estado adota controle institucionalizado, ou se reforça o uso da força extrema com impactos sociais amplos. A investigação do Ministério Público, o acompanhamento da Defensoria Pública e a transparência nos procedimentos serão essenciais para evitar que a operação, por mais espetacular que seja, se torne apenas mais uma página de violência registrada.