Com pelo menos nove intoxicações confirmadas e duas mortes em São Paulo, investigações seguem em andamento, governo anuncia inquérito e reforça ações de fiscalização para conter riscos à saúde pública.
O Brasil vive nos últimos dias uma escalada preocupante de ocorrências de intoxicação por bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, substância altamente tóxica capaz de provocar cegueira, graves lesões neurológicas e até a morte. Só em São Paulo, foram confirmados pelo menos nove casos entre agosto e setembro de 2025, dois deles fatais, além de uma terceira morte suspeita registrada na Grande São Paulo. O episódio reacendeu o debate sobre a fragilidade da fiscalização e os riscos da circulação de produtos clandestinos.
Diante do cenário, o Ministério da Justiça e Segurança Pública determinou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar a origem do metanol encontrado nas bebidas e rastrear possíveis redes de distribuição. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP) emitiram nota técnica com orientações a bares, distribuidores e comerciantes, enquanto estados como Pernambuco reforçam as ações de vigilância sanitária em bares e distribuidoras, alertando consumidores sobre sinais de fraude.
O uso de metanol em bebidas não é inédito no país. Em 1992, casos de intoxicação em massa em Diadema, na Grande São Paulo, resultaram em mortes e sequelas graves. Em 1999, na Bahia, 35 pessoas morreram após consumir cachaça adulterada. Mais recentemente, em Minas Gerais, 29 consumidores foram intoxicados pela cerveja Belorizontina, da Backer, contaminada com dietilenoglicol, outra substância tóxica, mas com efeitos igualmente devastadores.
O metanol, também chamado de álcool metílico, é um produto usado na indústria como solvente e combustível. Quando ingerido, mesmo em pequenas quantidades, provoca sintomas como dor de cabeça, náuseas, visão turva, dor abdominal e confusão mental. Em doses maiores, pode causar insuficiência respiratória, cegueira irreversível e morte. O risco aumenta quando bebidas de origem clandestina circulam sem qualquer controle sanitário, muitas vezes oferecidas a preços mais baixos em estabelecimentos informais.
Para as autoridades, o desafio é múltiplo: combater a falsificação, aumentar a fiscalização em pontos de venda, conscientizar consumidores e responsabilizar os envolvidos. Enquanto isso, especialistas reforçam a necessidade de cuidados básicos: evitar bebidas sem procedência clara, checar rótulo, lacre e selo, exigir nota fiscal e procurar atendimento médico imediato diante de sintomas suspeitos.
Os recentes casos revelam a urgência de medidas mais rígidas, seja na legislação, na fiscalização ou na educação preventiva. A saúde pública está em risco, principalmente entre consumidores mais vulneráveis, que recorrem a produtos baratos e, muitas vezes, inseguros. O governo promete ampliar as investigações e endurecer punições, mas a prevenção continua sendo a maior arma contra esse tipo de crime silencioso e devastador.