Guia de Redação: eixos temáticos para o Enem 2025

Especialista do Bernoulli analisa os temas que podem surgir na redação do Enem

A redação do Enem é uma das etapas mais aguardadas e também mais temidas pelos candidatos. Isso porque ela costuma tratar de uma questão-problema de relevância social e atual para o Brasil, exigindo dos estudantes não apenas domínio da escrita, mas também a capacidade de argumentar de forma consistente e apresentar uma proposta de intervenção viável.

Na avaliação, não basta apenas escrever bem: é necessário demonstrar repertório, isto é, a capacidade de dialogar com referências diversas, de autores clássicos à cultura contemporânea. Por isso, acompanhar os acontecimentos ao longo do ano e compreender os principais eixos temáticos em destaque no debate público é fundamental para chegar bem preparado à prova.

A seguir, a professora de Língua Portuguesa e Redação do Bernoulli Educação, Sidinéia Azevedo, aponta os eixos temáticos que tiveram mais destaque em 2025 e que podem estar no radar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para o tema da redação. Para cada um deles, a professora compartilha os repertórios que podem enriquecer a argumentação e contribuir para conquistar a tão sonhada nota mil.

Criança e adolescente

Entre os eixos em destaque está o que envolve crianças e adolescentes. Em 2025, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 35 anos, uma data emblemática para discutir direitos e proteção integral. Além disso, episódios recentes trouxeram o tema para o centro do debate público: denúncias de exploração sexual na Ilha do Marajó, o premiado filme Manas, que aborda a temática, e a investigação do influenciador Felca sobre a adultização sexual infantil e juvenil. Esses acontecimentos reforçam a relevância do tema.

O último assunto da redação voltado especificamente para esse público foi há mais de uma década, quando o Enem propôs uma reflexão sobre publicidade infantil, o que aumenta a expectativa. O candidato deve ficar atento à questão da vulnerabilidade infantojuvenil, ao papel da sociedade na proteção de crianças e adolescentes e às políticas públicas que asseguram esses direitos”, destaca a especialista.

O que acompanhar?

  • ECA: Fundamental para compreender direitos, proteção integral e políticas públicas e pensar em propostas de intervenção inovadoras.
  • Filme Manas (2025): O longa, ambientado na Ilha do Marajó, no Pará, narra a história de uma jovem que luta para romper com um ciclo de violência que afeta as mulheres de sua comunidade, explorando temas como a exploração sexual infantil.

Idoso

Outro eixo relevante é o que envolve a população idosa. Em 2025, casos de golpes financeiros envolvendo aposentados ganharam grande repercussão, levando o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a modificar regras sobre empréstimos consignados. Esse cenário reforça a necessidade de discutir a vulnerabilidade dos idosos diante das tecnologias e a importância da alfabetização digital.

A prova pode explorar como a sociedade lida com o envelhecimento, com os direitos da pessoa idosa e com os desafios impostos pela exclusão digital. Questões de letramento tecnológico e de proteção contra abusos financeiros ou emocionais são pontos de atenção”, afirma Sidinéia Azevedo.

O que acompanhar?

  • Estatuto do Idoso: Garantia de direitos e proteção social.
  • IBGE: acompanhar os dados e pesquisa sobre o envelhecimento no Brasil

Meio ambiente

Questões ambientais seguem entre os temas mais fortes para o Enem. O Brasil viveu recentemente episódios de enchentes e incêndios, ao mesmo tempo em que se prepara para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), a COP30, em Belém. Além disso, cresce a discussão sobre racismo ambiental, já que populações vulneráveis são as mais impactadas pelos desastres.

O Inep tende a associar problemáticas ambientais a recortes sociais, mostrando que não se trata apenas de um desafio técnico. O candidato deve se atentar às consequências para populações em situação de vulnerabilidade e pensar em soluções que integrem sustentabilidade e justiça social”, observa a especialista.

O que acompanhar?

  • COP30 (2025): Principais debates globais sobre meio ambiente.
  • Ailton Krenak: Ativista ambiental, filósofo e escritor indígena brasileiro que se destaca pela sua incansável luta em defesa dos direitos indígenas e da preservação da natureza.

Saúde mental e tecnologia

O impacto da tecnologia sobre a saúde mental também desponta como eixo relevante. Pesquisas mostram aumento de quadros de ansiedade e depressão associados ao uso excessivo das redes sociais, especialmente entre jovens.

“Mais do que condenar a tecnologia, a prova pode exigir uma reflexão crítica sobre como ela é usada, seus impactos na saúde mental e como a sociedade pode equilibrar avanços digitais e bem-estar”, analisa Sidinéia.

O que acompanhar?

  • Livro: A fábrica de cretinos digitais: Os perigos das telas para nossas crianças, do Michel Desmurget.

Inteligência artificial na educação

Com a rápida expansão da inteligência artificial, o debate sobre seus impactos na escola se torna cada vez mais urgente. Professores já utilizam ferramentas de IA para elaborar materiais, e estudantes recorrem a elas em atividades de pesquisa e estudo. Mas os riscos de mau uso, como plágio ou dependência excessiva, estão no centro da discussão.

É um tema atual, que pode levar os candidatos a refletirem sobre o papel da escola no letramento digital e na mediação ética da tecnologia. A redação pode explorar tanto os benefícios quanto os desafios da IA no processo de ensino-aprendizagem”, explica a especialista.

O que acompanhar?

  • UNESCO: a organização internacional disponibiliza em seu site diversas pesquisas globais e recomendações sobre o uso da IA nas escolas.
  • Pierre Lévy: filósofo, sociólogo francês e pesquisador em ciência da informação e da comunicação.

Mais do que prever, é preciso se preparar

Embora acompanhar os principais eixos ajude na preparação, é importante lembrar que a redação do Enem não cobra apenas conhecimento temático, mas também habilidades de escrita, organização de ideias, repertório cultural e capacidade de propor soluções viáveis.

O estudante precisa treinar a escrita com regularidade, acompanhar os acontecimentos, analisar diferentes pontos de vista e construir repertórios sólidos. Mais do que adivinhar o tema, o que faz a diferença é a capacidade de articular argumentos de forma crítica, clara e criativa”, conclui Sidinéia Azevedo.

Mais do que uma prova, a redação do Enem é um espaço para que o estudante mostre sua capacidade de refletir sobre os desafios do país e propor caminhos de transformação. Preparar-se, portanto, vai além de acumular informações: é exercitar o olhar crítico, a sensibilidade social e a habilidade de construir soluções possíveis. Assim, cada candidato pode transformar conhecimento em argumento e, principalmente, argumento em mudança.

Fontes...

Leia também...