Com investimento de R$ 5,5 bilhões, a montadora chinesa inicia produção em Camaçari, promete gerar 20 mil empregos e transformar o estado em polo nacional de veículos elétricos apesar de enfrentar denúncias trabalhistas e desafios logísticos.
A montadora chinesa BYD está prestes a inaugurar um dos empreendimentos industriais mais ambiciosos do país: sua nova fábrica em Camaçari, na Bahia. O complexo, que ocupará parte das antigas instalações da Ford, será o primeiro da marca no Brasil e o maior fora da China. Com investimento estimado em R$ 5,5 bilhões, o projeto promete transformar o estado em um polo estratégico da indústria de veículos elétricos e híbridos na América Latina.
A expectativa é que a produção comece ainda em 2025, inicialmente com a montagem de carros a partir de kits importados, em um sistema conhecido como SKD ou CKD. Essa etapa permitirá acelerar a entrada dos modelos da marca no mercado brasileiro enquanto se estrutura a nacionalização dos componentes. Os primeiros veículos produzidos na Bahia serão o SUV híbrido Song Plus e o elétrico Dolphin Mini, dois dos maiores sucessos comerciais da BYD no país. Em fases posteriores, o complexo também deverá abrigar linhas de produção de chassis para ônibus e caminhões elétricos, além de uma unidade para processamento de lítio e ferro fosfato, insumos essenciais na fabricação de baterias.
De acordo com o plano industrial, a planta terá capacidade inicial para montar cerca de 150 mil veículos por ano, com possibilidade de dobrar essa produção até o fim da década. O governo baiano estima que o empreendimento possa gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos, movimentando a economia regional e atraindo fornecedores para a cadeia produtiva automotiva. A BYD aposta na Bahia como base para abastecer não apenas o mercado interno, mas também países vizinhos da América do Sul.
Apesar do entusiasmo, o projeto não está livre de controvérsias. Durante a construção do complexo, o Ministério Público do Trabalho da Bahia identificou indícios de condições análogas à escravidão entre operários estrangeiros contratados por empreiteiras ligadas à obra. As denúncias incluíam jornadas exaustivas, alojamentos precários e retenção de passaportes. Após as investigações, o governo federal suspendeu temporariamente vistos de trabalho de parte dos funcionários chineses envolvidos, e a BYD se comprometeu a revisar contratos e práticas de seus fornecedores. A empresa afirmou que repudia qualquer violação de direitos trabalhistas e que está cooperando com as autoridades brasileiras.
Além dos desafios sociais, a fábrica enfrenta entraves climáticos e logísticos. As fortes chuvas na região de Camaçari provocaram atrasos em algumas etapas da obra, e o cronograma precisou ser ajustado. Mesmo assim, a empresa mantém o compromisso de tornar a planta totalmente operacional até o fim de 2026. Até lá, a montagem a partir de kits importados ajudará a reduzir a dependência de importações completas e a aproveitar janelas tributárias antes do aumento das tarifas sobre veículos elétricos.
O projeto da BYD chega em um momento crucial para o setor automotivo brasileiro, que tenta se adaptar à transição global para veículos mais limpos. A nova fábrica representa uma oportunidade para o país fortalecer sua cadeia tecnológica, desenvolver fornecedores locais e atrair investimentos em inovação e sustentabilidade. Para a Bahia, o impacto é ainda mais profundo: a instalação reativa o parque industrial de Camaçari, que estava praticamente ocioso desde a saída da Ford em 2021, e reacende a perspectiva de crescimento econômico na região metropolitana de Salvador.
Se os planos se concretizarem, a unidade baiana poderá se tornar uma referência na produção de veículos elétricos no hemisfério sul. No entanto, o sucesso dependerá da capacidade da BYD de garantir padrões trabalhistas adequados, ampliar a nacionalização de componentes e oferecer produtos competitivos em um mercado ainda em adaptação à mobilidade elétrica. Entre promessas e desafios, a fábrica da BYD na Bahia simboliza não apenas uma aposta empresarial, mas também um teste para o futuro da indústria automotiva brasileira.