Saúde

Feijão queimado pode matar: situações para tomar cuidado durante a quarentena

Para boa parte das pessoas, a rotina no isolamento está um tapa aqui, descobre ali. Tem que preparar o almoço enquanto o filho está aprontando arte, demanda de trabalho home office com descompasso das horas, a casa acumulando poeira e ainda todo o receio de se contaminar com o novo coronavírus. No malabarismo para dar conta de tudo, sobram distração e criatividade. Sabia, por exemplo, que misturar álcool e água sanitária pode ser uma combinação perigosa? E que feijão queimado pode te sufocar e até matar?

De fato, álcool e água sanitária têm sido importantes aliados para despachar o coronavírus das nossas casas, mas muitos acidentes têm acontecido por causa do uso mais frequente destes produtos. Era ainda comecinho da pandemia em Salvador quando a analista financeira Jacqueline Nogueira passou por uma situação dessas. Como trabalha num restaurante, ela estava na correria tentando entender como ficaria o funcionamento.

“Como eu tenho o costume de estar com álcool sempre por perto porque pego muito em dinheiro, eu me distraí, minha cabeça estava a mil e acabei confundindo a minha garrafa de água com a de álcool e bebi. Graças a Deus, eu não engoli. Percebi que era álcool e corri para cuspir”, ri, ao lembrar. Para não acontecer de novo, a analista já adotou uma estratégia: transferiu o produto para o borrifador. Agora não tem erro.

Em casa, os acidentes podem ser ainda mais comuns com álcool e água sanitária, já que se combinados eles representam um perigo extra. De janeiro até o fim de junho, 138 pessoas deram entrada em unidades de saúde na Bahia por intoxicação causada por produtos químicos, sendo 99 por produtos de limpeza, segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab).

Professora do curso de Engenharia Química da Unifacs, Gabriela Deiró chama atenção para os riscos de misturas de produtos de limpeza que estão sendo feitas com o intuito de criar soluções “potencializadas” contra o vírus.

A engenheira explica que estes produtos químicos, em geral, são feitos para agirem sozinhos. Água sanitária, álcool, vinagre e detergente, por exemplo, são capazes de fazer o papel de limpeza sem precisar de aditivos.

“Tem gente que faz mistura destas substâncias achando que está potencializando, mas, na verdade, pode causar o efeito contrário porque desativa o composto químico. Quando um produto precisa de aditivo, costuma ser vendido junto ou pelo menos vem uma indicação no rótulo de que precisa de outra coisa para agir”, explica.

Gabriela esclarece que o álcool possui em sua fórmula um grupo hidroxila, formado por oxigênio e hidrogênio (OH). Esse grupo confere ao álcool uma espécie de acidez e, quando misturado com o componente da água sanitária — o hipoclorito de sódio (NaClO) —, ocorre uma reação química que libera gás cloro (Cl). Esta liberação também acontece em misturas de água sanitária com vinagre e ácido muriático.

A inalação de gás cloro é nociva ao corpo humano e pode gerar irritação na pele e nos olhos, além de dor de cabeça e incômodo na respiração. Os efeitos cumulativos podem acarretar problemas de saúde mais graves, como queimaduras no pulmão. Como a covid-19 atinge severamente o sistema respiratório, o menos necessário no momento é algo que agrave estes riscos. 

Nos EUA, o presidente Donald Trump sugeriu a ingestão de água sanitária para tratar a covid-19 e a declaração provocou uma onda de intoxicação em Nova Iorque. Professor de Química dos colégios ISBA e Portinari, Luiz Alberto Amorim brinca que os produtos estão “na moda” e é natural que as pessoas exagerem no uso por medo. Amorim alerta ainda para os riscos de queimaduras de pele devido ao uso mais intenso de álcool para higienização das mãos. 

“Quando você faz uso de álcool, é importante dar um tempo, uns 20 minutos, para fazer qualquer atividade que envolva fonte de calor, como cozinhar. E não podemos sair combinando produtos como a gente deseja. Esses gases representam um perigo que pode levar à perda de consciência e até a morte”, completa. 

Dados levantados pela Sesab a pedido do CORREIO revelaram que as intoxicações com produtos recomendados na prevenção ao vírus fizeram mais vítimas entre crianças até 5 anos de idade, perfil mais vulnerável a acidentes.

Feijão queimado

Outro risco subestimado é o feijão queimado. Esquecê-lo no fogo pode causar a liberação de um gás chamado fosgênio, altamente tóxico e que chegou a ser usado como arma química na Primeira Guerra Mundial. Inalá-lo por 15 minutos em ambiente fechado pode ser fatal. Como é mais pesado que o ar, o fosgênio pode causar asfixia em locais não ventilados e provocar irritação dos olhos, garganta, tosse, desconforto respiratório, vômitos e dor de cabeça.

Professora do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Zenis Novais relata que o fosgênio tem um cheiro forte característico e que, ao senti-lo, o ideal é abrir imediatamente as janelas para que haja troca de ar. “O cheiro é medonho”, brinca. Mas dá para sentir esse odor numa concentração mais baixa do que a necessária para provocar os efeitos adversos.

“Por via das dúvidas, jogue fora. O ideal é nunca comer porque pode ter gás dentro”, indica Gabriela Deiró.

Outros cuidados
Com os hospitais sobrecarregados e o risco de contágio iminente, as famílias devem dobrar os cuidados com a saúde para evitar a necessidade de buscar o serviço médico. No entanto, o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Roberto Parise Filho, afirma que não é indicado fazer estoque de remédios em casa. 

Parise diz que, apesar disso, manter um medicamento antitérmico e analgésico para casos de dor de cabeça ou até mesmo uma febre inesperada no meio da noite pode resolver muitos problemas. Nesta época de inverno, manter também o uso de um descongestionante nasal, solução fisiológica 0,9% e aparelho de inalação podem ajudar a prevenir problemas respiratórios. 

“Para quem tem crianças em casa e, principalmente, considerando a quarentena e o maior risco de acidentes domésticos, manter materiais para curativos como gaze, esparadrapo e algodão hidrófilo torna-se primordial”, acrescenta.

O uso de antissépticos, como água oxigenada ou sprays associados a anestésicos também é útil para ferimentos, mas o melhor tratamento para feridas continua sendo lavar com água e sabão.

10 MEDICAMENTOS ÚTEIS EM CASO DE DOENÇA OU ACIDENTE DOMÉSTICO
Fonte: Tainara Carneiro, farmacêutica residente em Saúde da Família (Univasf)

Antes de adquirir esses medicamentos, certifique-se de que realmente pode utilizá-los e siga todos os cuidados de utilização e armazenamento. O farmacêutico é um profissional acessível e preparado para te orientar quanto ao uso correto. Os medicamentos listados abaixo não necessitam de receita para serem comprados. No entanto, não devem ser utilizados de maneira indiscriminada.

1.    Analgésico, para dor
2.    Antiácido, para azia 
3.    Antifisético, para gases 
4.    Antisséptico, para desinfetar ferimentos 
5.    Anti-histamínico, para o alívio de sintomas de alergia 
6.    Pomada para picada de insetos
7.    Pomada para queimaduras
8.    Pomada cicatrizante
9.    Pomada para assaduras 
10.  Material de primeiros socorros (gaze esterilizada, esparadrapo, algodão, curativos adesivos).

Via Correio.

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